Added by Fernando Marcos Jr

Trekking pelas trilhas de El Chaltén, Patagônia, Argentina.

El Chaltén é uma das cidades mais novas da Argentina, fundada em 1985 para manter a soberania sobre territórios da disputada fronteira patagônica com o Chile. Localiza-se na província de Santa Cruz, dentro da área do Parque Nacional Los Glaciares, e com cerca de 2 mil habitantes na alta temporada, durante o verão, é um dos principais destinos para montanhistas e amantes do trekking de todo o mundo. Suas montanhas, desde a década de 1940, atraem os mais destacados praticantes de escalada, que fascinados pelas diversas paredes de rocha e gelo, já vinham para esse ponto da cordilheira andina mesmo sem contar ainda com uma cidade de apoio próxima. As montanhas mais procuradas da região são o Cerro Fitz Roy, ou El Chaltén, que deu o nome à cidade, e o Cerro Torre, considerado por muitos escaladores como a montanha mais difícil do mundo.

PRIMEIRO DIA

Pri e eu chegamos em El Chaltén no final de setembro, ainda longe do auge da temporada e, acho que por isso, encontramos a cidade bem vazia. A maneira mais fácil de se chegar é ir de avião até El Calafate e em seguida tomar um transporte até o povoado. São cerca de 3 horas de viagem em estrada asfaltada e muito bem conservada. Em El Calafate nos indicaram a empresa Las Lengas que oferece pacotes de day-trip para quem quer apenas conhecer El Chaltén, mas que também pode ser usada como transporte regular. Saímos de El Calafate pela manhã, umas 7h30 e deixamos o retorno agendado para 3 dias depois, às 18h30.  Chegando em El Chaltén, a van que faz o transporte pára no terminal de ônibus e na própria oficina da  empresa recebemos um mapa das trilhas e dicas de preservação. Também soubemos ali que algumas das trilhas estavam fechadas devido à grande quantidade de neve que havia caído nos últimos dias (essa é uma desvantagem de ir para essa região ainda no finalzinho do inverno, pouco antes do início da primavera). 

Ficamos hospedados na Cabañas Aires del Fitz, que contava com uma cozinha com itens básicos e aquecimento à gás, além de TV a cabo e até wi-fi. A dona do lugar nos mostrou como ligar e desligar o gás e onde ficava o supermercado mais próximo. Compramos comida para os próximos dias, incluindo itens para o café da manhã, lanches para as trilhas e ingredientes para preparar o jantar. O engraçado é que todo dia tínhamos que voltar ao mercado por algum motivo e se no dia anterior, haviam 3 pacotes de bolacha na prateleira e você pegava um,  no dia seguinte estavam lá apenas os 2 que haviam sobrado. Parecia que ninguém repunha os itens e ninguém comprava mais nada. Após devidamente instalados e com a comida garantida, partimos para fazer a primeira trilha, a do Mirador de Los Condores e Mirador de Las Aguilas.

É uma trilha bem curta, apesar da subida ser bem íngreme, com cerca de 1h de ida e ideal para se fazer na parte da tarde. A vista do pôr do sol lá de cima é bastante recomendada, porém, naquele dia o tempo estava bastante fechado.  A trilha se inicia atrás da sede do Parque Nacional Los Glaciares, cuja visita também recomendo fortemente. Na sede é possível obter com os guarda-parques informações detalhadas sobre a previsão do tempo para os próximos e é onde os escaladores, por medida de segurança, devem obrigatoriamente se registrar, indicando a montanha que pretendem subir, bem como data de ida e data prevista de retorno.  No Mirador de Los Condores, além de condores se você tiver sorte, é possível ter uma boa visão de toda El Chaltén e das montanhas ao redor.

No Mirador de Las Aguilas, um pouco mais à frente, pode se observar o Lago Viedma e até alguns blocos de gelo flutuando após se desprenderem do glaciar de mesmo nome. Durante alguns meses do ano, é possível fazer um trekking sobre o glaciar Viedma, contratando uma agência em El Chaltén que providencia o trasporte até a entrada do lago, o barco até o glaciar e os crampons necessários para se caminhar sobre o gelo. Fizemos um trekking semelhante em El Calafate, no glaciar Perito Moreno, um primo "mais famoso" do Viedma. No período em que estivemos em El Chaltén, o trekking sobre o glaciar Viedma não estava disponível.

SEGUNDO DIA

Acordamos cedo e o objetivo era chegar até a Laguna de Los Tres, um dos principais cartões postais de El Chaltén. Uma dica excelente que a Pri encontrou na internet enquanto planejávamos a viagem foi de pegar um transporte na rodoviária da cidade e iniciar a caminhada no local indicado pelo número 5 do mapa ao lado, na Hostería El Pilar. Dessa forma, passaríamos pelo Mirador Glaciar Piedras Blancas, Campamento Poincenot, Laguna de Los Tres, Laguna Capri e Rio de Las Vueltas, retornando a El Chaltén antes do anoitecer.  A rota tradicional é sair de El Chaltén subindo até Poincenot, uma trilha de aproximadamente 8km e 350m de desnível, sendo que a parte mais íngreme da subida é logo no início, ainda próximo da cidade. A vantagem de tomar o transporte é que a caminhada total prevista para o dia fica mais curta e mais plana no início, sobrando quase que somente descidas pro final do dia. Além disso, ao invés de fazer um bate e volta pela mesma trilha, você vai por um lugar e volta por outro. Novamente, utilizamos a empresa Las Lengas que nos buscou onde estávamos hospedados e nos deixou na Hostería El Pilar, em um trajeto de aproximadamente 30 minutos.

O dia começou muito bem, com sol e o céu bastante limpo, sem nenhuma indicação do tempo péssimo que viria pela frente. As trilhas são muito bem demarcadas em todo o parque o que permite que sejam percorridas sem guias, bastando ter um mapa com as indicações dos pontos a serem percorridos.  Inicialmente seguimos caminhando às margens do Río Blanco mas logo estávamos atravessando uma bosque de lengas, que é um tipo de árvore bastante retorcida e que dá um aspecto de floresta fantasma pro lugar. Apesar das copas das árvores não serem muito fechadas, há bastante sombra na trilha o que ajuda bastante a evitar o suor. E uma das coisas que você aprende rapidinho naquela região é que precisa se manter seco e aquecido o tempo todo. Mesmo com as baixas temperaturas, as caminhadas demandam muita energia e você acaba sentindo calor durante o dia. Por isso, o conceito de três camadas de roupas é fundamental (uma segunda pele, um fleece para aquecer e um anorak impermeável corta-vento). É um tal de tira blusa, põe blusa, coloca a "orelhinha", tira o lenço do pescoço.. Mais trocas de roupas do que em musical da Broadway!

Depois de mais ou menos uma hora e meia de caminhada chegamos ao mirador do glaciar Piedras Blancas. Dali é possível observar pequenas avalanches e desprendimentos de gelo que produzem um barulho impressionante. Quando você ouve aquilo, parece que a montanha toda está vindo abaixo e quando consegue localizar o que está acontecendo, trata-se de um titico de gelo e neve se soltando do glaciar. Impossível não imaginar como deve ser o barulho assustador de uma avalanche de grandes proporções. Naquele momento, o sol já tinha se escondido e percebíamos pequenos flocos de neve trazidos pelo vento que soprava forte no topo da montanha. Mais um pouco de trilha e chegamos ao acampamento Poincenot, uma das diversas áreas onde é permitido o camping no parque. Havia apenas um única barraca montada e um casal tomando chá quentinho preparado em um pequeno fogareiro à gás. Atravessamos a área do camping, cruzamos uma ponte de madeira sobre o Río Blanco e iniciamos a subida da trilha que nos levaria até a Laguna de Los Tres. O céu já havia se fechado completamente e a neve caía cada vez mais forte.

Foi um teste pra nossas roupas compradas aqui no Brasil e que eu ainda não tinha certeza se aguentariam um tempo tão ruim e o temido vento patagônico. Já tínhamos visitado Ushuaia uma semana antes, mas era a primeira vez que pegávamos neve caindo na cabeça. Pri estava usando um anorak impermeável, mas eu vestia uma blusa de softshel, um tecido que repele a água mas não impede totalmente que você se molhe. Por isso, tratei logo de vestir uma jaqueta baratinha feita de material parecido com o utilizado em guarda-chuvas e que foi suficiente para evitar que eu me molhasse. Se fosse uma chuva forte, não sei se daria conta. Conforme subíamos, a trilha desaparecia sob a neve. Era difícil escolher onde pisar e cada passo era dado com muito cuidado. Meia hora por um caminho extremamente escorregadio e percebemos que seria muito arriscado tentar chegar até a laguna naquelas condições. Quando paramos por um instante pra decidir o que fazer, avistamos o vulto de duas pessoas descendo a montanha. Eram dois gringos e quando perguntamos se haviam conseguido chegar até a laguna, disseram que sim, mas que não havia laguna pra ser vista, que ela estava totalmente congelada e a vista completamente bloqueada pelas nuvens e pela neve que caía. Demos meia volta e começamos a descer. Pri ficou um pouco triste com nossa desistência forçada, mas concordamos que nunca deveríamos nos esquecer que por ali quem manda é a natureza e é melhor obedecer sempre. Não era ainda a hora de chegarmos até aquela laguna e é mais um motivo pra voltarmos pra lá qualquer dia desses. Assim que terminamos a descida, a neve cessou e alguns raios de sol reapareceram como se nada tivesse acontecido.

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